
Carlos Antônio
Em Óbidos, no início da poética década de sessenta, os comerciantes – tais como meu pai – faziam compras através dos caixeiros viajantes. Não existia telefone, telex, fax e nem sonhávamos com computadores e consequentemente com o maravilhoso correio eletrônico “internet”.
Os caixeiros subiam o Rio Amazonas via marítima nos regatões, navios da SNAPP, ou outro transporte da época, visitando os clientes das cidades que diziam – fazer a praça. Geralmente eram senhores bem trajados, portando sempre uma pasta preta da marca presidente e modelo “Sansonit”, onde traziam o mostruário das empresas representadas.
Certa vez, um caixeiro viajante que chegara num regatão chamado “Nossa Arca”, fez amizade com uma turma da cidade que o convidou para uma festa num clube social e seleto da cidade. Lisonjeado com o convite começou a se arrumar para a festa, no hotel da dona Mikita. Trajava calça de “Nycron” cinza e camisa “Volta ao Mundo” bege. O cabelo emplastado com óleo de mutamba, ligeiramente brilhava, impregnando os ambientes com rasto de duvidoso aroma. Constantemente puxava seu lenço de bolso para remover da testa, o excesso de óleo misturado com suor provocado pelo calor. Ele tinha pavor de cometer gafes e decepcionar seus amigos. Assim, antes de sair tomou uma colher de chá do perfume “Bond Street” que haviam lhe receitado para soltar “pum” cheiroso na festa.
Em seguida, como de praxe, iniciou pelo Bar Andrade, tomando lambreta¹ de coco e depois rum Bacardi carta ouro. Foi o suficiente para enfrentar o sereno² e participar da fina flor da sociedade obidense.
Ele era natural de Abaetetuba, onde fabricavam as melhores aguardentes de cana. Neste dia, o coitado bebeu tanto, que antes de cometer vexames, saiu cambaleando ladeira abaixo no rumo da beira. Quando chegou ao portoló³ do barco, uma moça o ajudou a embarcar e carinhosamente o fez deitar na rede. Ele então bêbado, voz pesada e atrapalhada sugeriu que a moça lhe fizesse companhia naquela noite de social embriaguez.
Ela - vida fácil de profissão - aguardara qualquer príncipe para fechar seu caixa naquela noite de escasso movimento. Tiveram uma noite de intenso amor na penumbra do porto, naquela fria madrugada de úmida brisa, embalados pelos banzeiros do rio, onde o vento acariciava a sanefa azul daquele barco, funcionando como hospedaria de amores.
Amanheceu. Tomou banho e foi direto visitar seus clientes, deixando sua parceira dormindo num profundo sono, extasiada de prazer. Lá pelas nove da manhã, o caixeiro viajante no balcão de uma loja tradicional, expunha seus produtos e com muita eloqüência tentava convencer o comerciante dos vantajosos preços, quando foi surpreendido por uma mulher que gritava, berrava, fazia gestos obscenos acusando-lhe através da mímica característica das pessoas que se acham privadas do direito da fala, deixando o caixeiro atarantado no meio das pessoas naquela loja.
Os fregueses riam da cena hilariante, enquanto o comerciante sugeria ao caixeiro viajante:
— Paga logo, se não ela vai afugentar nossos fregueses. Compra urgente uma caixa de Tetrex e toma uma injeção de penicilina de dois milhões e quatrocentas mil unidades.
Glossário:
1. Lambreta: Cachaça com sorvete.
2. Sereno: Pessoas apreciando a festa do lado de fora.
3. Portoló: Abertura na amurada do barco.
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Data / Hora:
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15/01/2012 03:35:55
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Nome:
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BRÍGIDO MOUZINHO GONÇALVES
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E-mail:
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bmgoncalves@ig.com.br
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Cidade:
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MANAUS
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Comentário:
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MUITO BOM!
PARA REFRESCAR A MEMÓRIA, À DITA CUJA,
SE CHAMAVA TEREZA MUDA.
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