SEX18052012

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APENAS REFLEXÃO

João Imbelloni

Há poucos meses – quando ainda navegava na escura solidão sem o Comandante de minha Nau – conversando com o meu neto Mikah, queixava-me de minha vida de nômade dos últimos anos, quando, para espanto meu, o menino de apenas quinze anos exclamou, olhando-me nos olhos:

 

- Também sou nômade!

- Como? Tu não podes...

- É verdade Vô. Desde a separação dos meus pais minha morada é: ora com minhas avós em Belém; ora com o meu pai em Mosqueiro; ora com minha mãe e o senhor aqui em Benfica...

Era verdade. Tão novo e já com problemas, mas, sem entrar nos detalhes dos mesmos, preciso dizer que o menino – com significantes prêmios – caminha como gente grande pelo mundo das letras.

De supetão, na frente do pequeno grande poeta, uma vez que nada mais saberia falar-lhe, escrevi no velho caderno usando a forma comum dos sonhadores:

NÔMADES

Nômades somos, neto Coração,

Amigos do tão-só e da saudade,

Mas, protegidos pela perene atenção

Do Nômade que vaga pela eternidade.

 

Nosso atual abrigo, a solidão verdade,

Paradoxalmente nos mostra o caminho

Que teremos depois da fria tempestade,

Quando a bonança pousará no ninho,

 

Bendito ninho da Fé e Esperança

Que nos conduz ao Universo,

Seguindo o destino que desde crianças

Leva-nos na direção do Progresso.

Segurando as lágrimas, o pequeno poeta, ao receber a folha extraída do caderno com o singelo poema a ele dedicado, falou-me com disfarçada emoção:

- Obrigado Vô! – dito isso foi deitar-se, com um livro nas mãos, na rede bem próxima ao Benfica, cujas águas, vazantes naquele momento, lembravam as incontidas lágrimas de pura reflexão de um jovem com imenso futuro...

Olhando para o meu querido neto a embalar os seus sonhos na rede da esperança, recordo de certo distante dia (década de 80), em Santarém, no Colégio Dom Amando: como trabalho escolar, minha filha Klimene declamava um poema com cerca de dez anos de escrito, o qual encontrara por acaso no meio de velhos papéis:

DESABAFO

Jovem ainda acreditava no mundo e nas pessoas;

O universo para mim era a base de tudo.

Agora sozinho, desiludido, abandonado e mudo,

Observo o quanto sou insignificante, pequeno, à toa...

 

Desgraçado pó na imensidão da vida,

Olvidado ser a vagar sem rumo.

 

Cansado de ver injustiças, traições e guerras,

Abandonei-me no opaco, mas, tão só, nunca

Resistiria ao ver meu semelhante, também de terra,

Mostrar-se como é hoje (pretenso superior e besta),

Olhar-me de frente e chamar-me de irmão.

 

Impossível resistir a tanto.

Maldita hipocrisia disfarçada de poderes,

Burrice de progresso mergulhado em prantos.

Então o que fazer diante dessa força?

Levar-lhe o apoio, como o fazem muitos?

Legar-lhe a vida em troca de nada?

O comodismo seria talvez a solução, porém,

No pior momento, sofrendo assim,

Impossível seria não continuar lutando,

 

Sentindo-me protegido por Ti,

Ó esquecido Único Deus.

Ao término da bem sucedida empreitada, sob aplausos, veio a pergunta do professor:

- Quem é o autor dessa obra?

- Não sei mestre. Presumo se tratar de autor desconhecido.

Ninguém observara que se tratava de um acróstico, no qual estava contido o nome do solitário autor, o qual, embora com trinta e poucos anos na época, escrevera uma obra que se prestaria para o presente, mais de trinta anos passados, com as bênçãos de Deus...

 


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