José Pedro Haroldo de Andrade Figueira
Anos 1960. O mundo passava por grandes transformações políticas, sociais e culturais. Década fecunda, também, em musicalidade. Lá fora, a banda The Beatles levava multidões aos seus shows na Europa e nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, trilhando o caminho dos rapazes de Liverpool, Roberto Carlos e sua Jovem Guarda faziam a juventude dançar e vibrar ao embalo do iê-iê-iê.
A nova onda que varria o planeta influenciava os jovens tanto no modo de dançar, quanto no de comportar-se. A maioria desejava não apenas ouvir o que os ídolos cantavam, mas parecer-se em tudo com eles. De repente, um número crescente de rapazes com cabelos longos, medalhões no peito, roupas chamativas e fazendo uso de gírias era visto trafegando pelas ruas, coisa impensável até pouco tempo atrás. Isso, nos grandes centros urbanos. No interior, reduto de sociedades mais conservadoras, o novo modismo encontrou resistências e só pouco a pouco foi sendo assimilado.
Mas concentremo-nos no aspecto musical. Naquela época, Óbidos ressentia-se da falta de uma banda moderna, capaz de reproduzir nos salões de baile, tal como tocadas originalmente, as canções que dominavam as paradas de sucesso e que chegavam até o público ouvinte pelas ondas do rádio. As festas dançantes da Assembléia Recreativa Pauxis continuavam concorridas, mas o conjunto que as animava não estava preparado para aplacar a sede de rock and roll da moçada.
Aludo ao grupo Euterpe Jazz. Seu repertório, à base de ritmos mais cadenciados como boleros, sambas e foxtrots, já não tinha a mesma aceitação de antes. Parara no tempo, ficara desatualizado. Até que contava com excelentes instrumentistas como o trombonista Antonio Gracy e o saxofonista Duquinha. O apoio de uma guitarra elétrica e de um baixo, porém, fazia-lhe muita falta.
É bem verdade que, de tempos em tempos, a diretoria da ARP contratava um conjunto de fora (Sebastião Sirotheau, os Hippies, de Santarém). Houve uma oportunidade em que aportou na cidade o famoso conjunto de Alberto Mota, de Belém, e animou aquele, que para mim, foi o melhor e mais concorrido baile do qual participei em terras pauxiaras. Mas isso só acontecia, como ressaltei, eventualmente. Os custos eram altos.
Lá pelo final da década, a modernidade instalou-se para valer. As objeções da comunidade ao modo extravagante de comportar-se dos jovens haviam arrefecido. Já era possível ver, transitando normalmente pelas ruas do lugar, moças dentro de minissaias exíguas e rapazes exibindo densas cabeleiras, vestidos com calças boca de sino e camisas com cores chamativas sem ligar para alguns olhares ainda carregados de reprovação e preconceito. Dançar rebolando também já não chamava tanta atenção.
Foi mais ou menos nesse período que Os Relicários surgiram. Formado por músicos locais, criado, patrocinado e supervisionado pelo meu amigo e colega Ricardo Soares Filho, o Cri-Cri, que, inclusive, cedia sua residência para a realização dos ensaios noturnos, o grupo musical obidense apresentava-se com Raimundo Alfaia, no baixo; Idarmir Amaral, no sax-tenor, Dazinho no sax-alto; Wilson, na bateria; e os saudosos Hilberto (Tibinga) na guitarra e Manoel das Graças (Brocoió) como vocalista.
Banda nova, bem ensaiada e equipada, garantia de salões de baile cheios e de gente feliz. Ao som de Os Relicários, o pessoal mais moço tinha, enfim, o estímulo de que precisava para exteriorizar toda a energia reprimida. Mas o portfólio melódico do grupo além de atualizado era diversificado. Seus integrantes estavam capacitados para executar bem qualquer gênero musical. Dessa forma, o gosto do público de mais idade ou o de pessoas que apreciavam canções mais românticas também era atendido a contento. A Cidade Presépio podia orgulhar-se, finalmente, de possuir um conjunto musical de primeira linha.
Quando em meados da década de 1970 deixei a cidade, o conjunto já se havia desfeito. Desfecho previsível. Cada um dos jovens músicos precisava pensar no próprio futuro. Era preciso dar ouvidos à voz da razão, pois, por mais gratificante e prestigioso que fosse o trabalho, não dava para viver só da atividade musical em uma comunidade interiorana.
Tudo que é bom, porém, não desaparece sem deixar vestígios. No mínimo, ficam recordações e saudades. Gente como eu e outros tantos privilegiados que privaram de momentos prazerosos proporcionados por aqueles talentosos rapazes, têm muito a agradecer, a eles e ao Ricardo, antigo mentor intelectual do grupo.
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