SEX18052012

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TRÂNSITO TRÁGICO

José Pedro Haroldo de Andrade Figueira

É bem possível que no Brasil morra mais gente no trânsito a cada ano do que em muitas guerras mundo afora. Sabe-se que, todos os dias, dezenas de compatriotas nossos perdem a vida ou ficam gravemente feridos em consequência de acidentes com veículos motorizados, seja na condição de condutores e/ou passageiros, seja na de pedestres.

Entre as causas dessa situação calamitosa, nem todas podem ser atribuídas à imprudência dos acidentados. Estradas mal conservadas ou mal sinalizadas dão também a sua contribuição. A maioria delas, porém, tem a ver, sim, com direção perigosa e conduta temerária. Excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, ingestão abusiva de álcool, não utilização dos cintos de segurança constituem algumas das muitas transgressões à lei praticadas em larga escala.

Motociclistas lideram com folga o ranking das maiores vítimas, tanto fatais, quanto seriamente lesionadas. Estão muito mais expostos a riscos. Não dispõem de cintos de segurança, air bags e outros instrumentos de proteção presentes nos carros. Tirante a cabeça guarnecida por um capacete nem sempre eficaz, o restante do corpo fica inteiramente desprotegido. Nessas circunstâncias, qualquer colisão ou derrapagem envolvendo as máquinas que dirigem tendem a acarretar-lhes, quando não a morte, danos físicos consideráveis.

Nos desastres de que se trata, talvez por conta do efeito chocante da notícia e do imediatismo do resultado final, a mídia costuma dar ênfase à divulgação do número de óbitos. Pouco ou quase nenhuma referência faz sobre o estado daqueles que sobreviveram. Quebrando o silêncio, a Folha de São Paulo, de 17.01.2012, revela, enfim, o tamanho do estrago. Em 2010, os casos de invalidez permanente somaram 152.000. Em 2011, só nos primeiros nove meses do ano, o montante alcançou a cifra de 166.000.

Setenta por cento desses sobreviventes usavam motos quando se acidentaram. Assinale-se, ainda, que a totalidade do percentual mencionado é composta por pessoas ainda jovens, na faixa etária que vai dos 18 aos 44 anos. Homens (majoritariamente) e mulheres que, do ponto de vista econômico, encontravam-se no auge de sua capacidade laboral e produtiva.

Trata-se, por qualquer ângulo que se analise, de um quadro estarrecedor a requerer providências urgentes por parte das autoridades. Até porque a perspectiva dominante é a de que a coisa piore com o passar do tempo. Para se ter uma ideia do crescimento exponencial da quantidade de pessoas que se tornaram fisicamente deficientes, basta lembrar que 2005 (há apenas 6 anos, portanto) registrou 31.000 casos.

Dar ampla publicidade às estatísticas, promover campanhas educativas duradouras e de ampla abrangência, fazendo uso principalmente da televisão, inclusive com a divulgação de imagens e depoimentos das pessoas vitimadas são, entre outras, medidas de caráter preventivo que não podem mais esperar. É grande a dimensão das perdas para que assistamos o mal expandir-se sem fazer nada de efetivo no sentido de combatê-lo.

Os prejuízos são múltiplos. Para o país, que não só deixa de contar com a força de trabalho de milhares de brasileiros, como precisa bancar, por meio do sistema previdenciário, o pagamento de aposentadorias precoces indefinidamente. Para as famílias, pelos cuidados especiais que delas exigirão os membros acometidos de mutilações ou paralisias, sem desconsiderar o impacto no orçamento familiar provocado pela inatividade compulsória e repentina desses entes queridos. Para os que se tornaram inválidos, tendo em vista as sequelas físicas e psicológicas com as quais terão de conviver pelo resto da vida. Tudo isso devido a um trânsito trágico que, cada vez mais, mata, fere e incapacita pessoas.


 


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