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MASCARADO FOBÓ

José Pedro Haroldo de Andrade Figueira

Conterrâneos residentes na cidade ou que vão a Óbidos a passeio falam-me maravilhas do carnaval de rua local. Não poupam elogios à festividade relatando, inclusive, que se transformou em um evento turístico, que atrai visitantes das circunvizinhanças e até de localidades mais distantes como a capital do Amazonas. Pelas fotos postadas na internet, constato que as fontes não exageraram.  A festa é, sim, sucesso de público e de animação.

Nem sempre foi assim. Em outros tempos, os festejos carnavalescos eram bem mais modestos. Começavam logo após as comemorações de final de ano e aconteciam geralmente aos domingos, assim que terminava o almoço.  Sem ligar para o calor intenso das primeiras horas vespertinas, pequenos grupos de foliões, mascarados ou não, iam tomando conta das vias públicas. Aos poucos, mais e mais gente agregava-se a eles. Lá pelo final da tarde, reuniam-se a dois agrupamentos maiores de brincantes (liderados, na maioria das vezes, pelos saudosos  Antonico-Pé-de Arpão e Mário Prata), até formarem um único e grande cordão, puxado por meia dúzia de músicos que tocavam marchinhas tradicionais como “Jardineira”, “Viva o Zé Pereira”, “Você pensa que cachaça é água”, “Me dá um dinheiro aí”, etc.

Mas a folia só esquentava para valer nos quatro dias finais do período momesco. Ainda assim, nada que pudesse ser adjetivado de espetacular ou que chamasse a atenção por conta da quantidade de participantes efetivos. Brincava-se da forma mais espontânea e simples possível. Não havia desfiles de escolas de samba, blocos organizados, nem fantasias vistosas. Muitas vezes, um punhado de talco no rosto, uma latinha e um pedaço de pau para servir de baqueta nas mãos bastavam. Em meio à empolgação geral, quem dominava a cena eram os mascarados fobós. E é deles que desejo me ocupar de agora em diante.

Vestidos com dominós feitos de tecidos estampados, máscaras artesanais sobre a face, portando nas bocas apitos e nas mãos bexigas de boi secas e infladas que batiam de encontro aos joelhos, esses personagens deixavam as crianças amedrontadas e os adultos curiosos. Quem a fantasia ocultava? Um homem? Uma mulher (as roupas folgadas disfarçavam a existência dos seios)?  As especulações corriam soltas.

Nas fases da infância e da adolescência, essas figuras carnavalescas despertaram em mim sentimentos paradoxais. Na primeira, causavam-me medo. Também, pudera! Toda a vez em que era obrigado a fazer algo que não apreciava (tomar uma injeção, ingerir algum remédio tipo purgante, por exemplo) minha mãe apelava: - moleque, ou tu tomas ou eu chamo o mascarado fobó! – A resistência desaparecia na hora. Na outra, a sensação era de desejo. Queria muito dançar, nas ruas, fantasiado como uma delas.

Só pelo fato de brincar sem temer ser fustigado pelos olhares policialescos da população conservadora, o sonho já se justificava. Agora, vejam: se da parte dos rapazes o respeito humano era grande, imaginem o que não se passava nas cabeças das moças, sujeitas, à época, a restrições comportamentais ainda mais severas. Nada mais alentador para ambos os sexos, portanto, do que se divertir livremente no anonimato, disfarçados de mascarados fobós.

 

Até que tentei realizar meu anseio juvenil. Máscaras e apitos eram itens fáceis de obter. Bexiga de boi, também, desde que se aguardasse na fila de espera do matadouro municipal. Mas o gargalo estava no dominó. Para usá-lo era preciso pagar aluguel. Eu, como quase todo jovem do meu tempo, não dispunha de dinheiro no bolso e meu pai não admitia gastar com coisas que não fossem necessárias. Entrei para a vida adulta. O sonho morreu, restaram as boas lembranças.

A página principal do site Chupaosso está povoada de imagens sugestivas dos mascarados fobós. Sinal de que eles permanecem mais presentes do que nunca na memória e nos costumes populares da comunidade. Acho isso positivo. Entendo que tradições e valores culturais devem ser preservados, pois contribuem para reforçar os laços de identidade das pessoas para com sua gente, sua terra natal, suas origens, enfim. Essa crença vale para o país, para o estado e para o município.

Tomara que o carnaval obidense cresça cada vez mais. É bom para a promoção da imagem da terrinha (com a internet, o mundo todo passa a conhecê-la) e para a economia da cidade. Mais gente vinda de fora significa mais dinheiro circulando na praça, consequentemente, mais oportunidades de emprego e renda para os habitantes locais. Torço, também, para que essa festa notabilize-se pela alegria contagiante e pelo ânimo pacífico de seus foliões. Jamais pela incivilidade ou violência gratuita de quem quer que seja.

 


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