
José Pedro Haroldo de Andrade Figueira
Desolado, assisto pelo noticiário da televisão à situação dramática das populações do semiárido nordestino e das localidades às margens dos rios da Amazônia que, neste ano, padecem, respectivamente, com os rigores de uma seca devastadora e de uma enchente que se avolumou além da conta.
Secura extrema, de um lado, excesso de água, de outro, duas calamidades antagônicas infernizando o cotidiano de milhares de famílias que residem em vasta área territorial localizada predominantemente na parte superior do mapa do Brasil. Pessoas que, não bastassem as perdas materiais incalculáveis que sofreram, vivem dias de medo e de incerteza quanto ao futuro.
Estiagens prolongadas e grandes enchentes nas regiões mencionadas são fenômenos previsíveis, ainda mais com os recursos científicos e tecnológicos hoje disponíveis nas instituições de acompanhamento meteorológico. Na visão popular do sertanejo, a seca instala-se quando a premissa de “plantar em São José para colher no São João” não se confirma. O agricultor nortista sabe, também, que quando o rio sobe e alaga as lavouras de juta antes que tenham atingido o ponto de corte é prenúncio de que vem enchente braba por aí.
Lutar contra as forças da natureza é tarefa inócua. Bem diferente é adotar medidas preventivas para minimizar os efeitos danosos da ação natural. Pelo menos no que diz respeito à seca nordestina, há como fazê-lo. O problema é antigo e as soluções conhecidas, penso que não vale a pena requentar a discussão. Basta lembrar que os colonos de Israel - país localizado em uma região desértica - conseguem tocar a vida e produzir mesmo a despeito da adversidade do clima. Se os israelenses podem, por o que os brasileiros não?
Por aqui a questão é de outra ordem e vem de longe. As boas intenções até que existem, só que em vez de se transformarem em ações, ficam na zona confortável dos discursos vazios (D. Pedro II já falava em vender até a última joia da coroa para resolver o problema da escassez de chuvas). Falta aos que detêm as rédeas do poder um pouco mais de sensibilidade humana e, sobretudo, vontade política para fazer no tempo certo o que precisa ser feito.
Com efeito, será que dá para aceitar como mais um caso de emergência sazonal as agruras de quem há tanto tempo não tem água sequer para beber? Ou o desespero de seres humanos que permanecem ilhados, literalmente de molho, cada vez mais espremidos entre o piso e a cumeeira de suas frágeis habitações? Dá para subestimar as estatísticas oficiais que apontam a atual seca nordestina como a maior dos últimos cinqüenta anos e a cheia nortista como a que quebrou todas as marcas de elevação do nível das águas registradas nos últimos cem anos?
Em comum entre os flagelados o fato de a maioria ser pobre, mal representada politicamente e de certa forma ignorada pelo resto da sociedade. Fosse de outra forma e a mobilização social seria maior, a televisão não se limitaria a mostrar, eventualmente, apenas flashes de imagens da secura nos campos ou das terras alagadas. Registraria, também, a presença física de governadores, ministros e da própria chefe da Nação levando, diretamente, solidariedade aos cidadãos vitimados e dizendo-lhes, olho no olho, o que concretamente estaria sendo feito para dar-lhes abrigo, alimentação e apoio financeiro. Alguém viu essas autoridades por lá? Eu ainda não.
Não tenho dúvidas de que essas pessoas sofridas saberão, mais uma vez, dar a volta por cima. Recomeçarão do zero e reconstruirão suas vidas. Têm fibra, bravura, determinação e fé em Deus de sobra. Não é justo, porém, que continuem a fazer tudo sozinhas. Afinal, integram a nação brasileira, trabalham e produzem. Pagam impostos como todo mundo e têm o direito, portanto, de vê-los retornar sob a forma de benefícios sociais, principalmente quando mais necessitam de que isso aconteça.
Infelizmente, por desinformação ou descrença na possibilidade de mudança, cansada de não ter voz nem vez, nossa gente (e não me refiro só a sertanejos e ribeirinhos) resigna-se com as permanentes agressões à sua cidadania. Parece não ter se dado conta, ainda, de que só será verdadeiramente notada, ouvida e respeitada se fizer valer a arma política do voto consciente que possui nas mãos. Respostas contundentes nas urnas, independentemente de quem seja o governante de plantão e da agremiação partidária à qual pertença, eis o meio mais eficaz para fazer a classe política rever urgentemente os seus conceitos.
|
. ARTIGOS |
. DIVERSÃO |
. NOTÍCIAS |
. SERVIÇOS
|