DOM19052013

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DE VAPOR SUBINDO PARA ÓBIDOS

Cesar Calderaro

Casaram-se em 1939, Antônio e Lúcia, e foram viver em Óbidos e no "Recreio" do Paraná da Dona Rosa, onde os Calderaro estavam desde antes de 1900. Como os pais dela moravam em Belém, era para onde íamos quando precisávamos de apoio da cidade grande. Por isso, pelo meio dos anos cinquenta, algumas vezes, de vapor, descemos e subimos o rio Amazonas, viagens que tinham de tudo: alegrias, tristezas, brigas, amores, choros, negócios, partos, mortes e tudo mais, longas viagens inesquecíveis.

Em Belém, minha mãe resolvia as questões da família, com o apoio da Vó e tias; o pai fazia seus negócios e as encomendas no comércio; e todos se preparavam com esmero, para subirmos o rio de volta paras Óbidos.

Os embarques eram acontecimentos de relevância. Levávamos as malas, no dia e horário planejados, para o cais do porto, na escadinha, onde as despedidas dos parentes eram longas, chorosas e com lenços balançando em adeus para muitos meses, talvez anos. Os homens vestiam ternos e chapéu; e as mulheres, vestidos especiais. Os embarques iam se acelerando, à medida que o vapor avisava, com os apitos graves e longos, que a hora da partida estava a chegar e, quando chegasse, seriam suspensas as pranchas de embarque, impreterivelmente.

O vapor se punha ao largo, lentamente; e todos iam para as grades laterais do barco, ainda a olhar o cais, e os lenços, mais fortemente, eram postos ao alto em adeus.

Progressivamente, a velocidade ia aumentando; aos poucos, o perfil de Belém ia diminuindo, diminuindo, até adentrarmos o canal ao norte da ilhas das Onças e Arapiranga; em seguida, a baia de Guajará se alargava e víamos a ilha de Marajó; ai, aproávamos em busca do oeste, em busca do Sol poente, na direção de Óbidos.

A vida no vapor era disciplinada a cada dia, invariavelmente, pelos horários: do café da manhã; do almoço; do jantar; das paradas à tarde nos barrancos das margens, para pegar lenha e enterrar os mortos; e do reiniciar da viagem, ao nascer do sol. Quando a lenha era pouca, tínhamos que esperar os cortadores, por dias.

No findar das tardes, cenários conflitantes ocorriam, simultaneamente: o vapor tipo gaiola encostado ao barranco, com os riscos das amarras retesadas; o remanso levando os matupás (tosões de capim, mururés e outros vegetais) pela correnteza abaixo, inspirando a calma dos rios de planície; os carregadores transportando os feixes de lenha, do barranco para o vapor, num vai e vem rude, que me provocavam o sentimento de determinação; o jantar nas mesas da primeira classe, em ritual, a me garantir a  segurança da alimentação; e os enterros dos mortos do dia, a me imporem humildade. Era assim a cada final de tarde, por dias e dias.

A terceira classe, no porão, era, na maioria, de nordestinos em retirada da seca que vinham para Belém, onde, dizia-se, eram isolados nos acampamentos e, por meio dos vapores, iam sendo, pelos seus desejos, deixados nos portos de lenha e nas cidades ribeirinhas, até os limites da Amazônia.

Menino, eu descia para a terceira classe, pois os de lá tinham a minha idade e, como eu, eram alegres e gostavam de brincar correndo e subindo por todos os espaços do barco.

Na terceira, a quantidade de gente era demasiada, todos em rede, umas por cima das outras. Lá, as mortes eram diárias; e as que mais me constrangiam eram as das criancinhas envoltas em seus lençóis brancos, dentro de caixinhas mortuárias feitas com tábuas de caixotes, com seus rostinhos embranquecidos, sobre mesas improvisadas, entre tocos de velas acesas, em ladainhas baixinhas e violas em repentes de dor - nunca mais vi nada tão triste. Na hora de aportar para pegar lenha, essas ladainhas ficavam mais altas e passavam a dar cadência aos que acompanhavam os mortos, carregados, por sobre a rampa de desembarque, ao por do Sol, para serem enterrados no barranco, em covas rasas feitas às pressas, com suas pequeninas cruzes brancas, ao lado das outras que lá já estavam.

Da segunda classe, pouco me lembro; se ela existia, era como corredor de passagem e de espaço para brincadeiras.

Os da primeira classe não tinham contato com os da terceira, o motivo era a cólera. Depois do jantar, jogavam dama, baralho, dominó e, sob a luz da lua, dançavam, sobretudo os jovens que estudavam em Belém e voltavam para Óbidos, nas férias longas de fim de ano.

Numa dessas viagens, no início de uma tarde, depois do almoço, no mormaço silencioso, ouviu-se um barulho grave e curto, ao mesmo tempo todo o vapor tremeu e empacou, jogando todos pra frente, bruscamente. Ouviu-se uma voz informando que tínhamos encalhado. As máquinas pararam e dois tripulantes e um passageiro voluntário caíram n'água para uma inspeção geral: o casco estava atolado e o hélice tinha entortado as pás. Outro vapor descia o rio e já ancorava a meia distância do nosso. Noutro dia, cedo, ao nascer do Sol, os três mergulhadores já estavam n'água a trocar o hélice pelo reserva que o previdente comandante trouxera e, ao findar da tarde, o hélice estava trocado; mas continuávamos atolados. No segundo dia, foi feita a amarração, com cordas e nós bem socados, para que o vapor que nos veio socorrer pudesse puxar o nosso, a favor da correnteza, para desatolá-lo. Ninguém reclamava de nada e todos cooperavam. O rio Amazonas estava a encher, o que ajudava. O outro vapor, puxando as cordas com seu motor a meia força, foi fazendo o nosso deslizar lentamente do atoleiro até flutuar novamente. No dia seguinte, as caldeiras foram posta em carga, o hélice começou a movimentar o barco e, com redobrada prudência, recomeçamos a subida do rio.

Dos dias, se perdia a conta, subindo as águas largas e barrentas do rio Amazonas.

As chegadas eram, normalmente, ao final da tarde, quando avistávamos, a boreste e ao longe, a serra da Escama, se destacando da selva, à borda do rio, com o Sol a se pôr à nossa frente, com os seus reflexos sobre as águas. A seguir, víamos a silhueta de Óbidos que, aos poucos, ia se definindo mais e mais: o trapiche velho; o novo, mais perto do Paturi; as frentes dos casarões, todas bem visíveis; e as ruas envolvendo um grande terreno limpo, a se tornar praça, margeando o rio, numa ampla orla aberta, ao longo de  toda a frente da cidade. Parecia que estávamos chegando à porta do céu.

O vapor, em manobra, volteava, bandeava e encostava ao trapiche novo; ajustavam-se as amarras; lançavam-se as rampas; e descíamos à terra.

Em casa, quando chegávamos, estava posta a mesa, pois já tinham visto o vapor a se aproximar, tudo num ritual calmo, de abraços, risos e assuntos infindáveis.

Pela manhãzinha, eu já estava, em pé, indo para as ruas de Óbidos: era o céu.

 


COMENTÁRIOS

Data / Hora:
15/06/2012 02:19:33
Nome:
César Calderaro
E-mail:
rc.calderaro@gmail.com
Cidade:
Belém-Pará
Comentário:
Este e os outos escritos meus, a serem publicados aquí, estão sendo escritos para os meus filhos e netos que me pressionam, já por décadas; assim, estou, de novo, me vendo um menino em Óbidos, estando já por perto dos setenta; o reviver desse menino em mim é um privilégio, que divido com todos.

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