
Carlos Antônio
A conclusão do ginásio em Óbidos era como uma convocação para guerra. Os jovens saíam, tal como pássaros em revoada. Uns iam pra Belém, outros pra Manaus e alguns para seminários, deixando as mamães chorando no trapiche.
Em Belém, vivíamos perambulando pelos pensionatos, quartos ou agregados a familiares. Os obidenses eram unidos. Das dificuldades, fazíamos histórias, que até hoje nos trazem recordações. Passamos direto no vestibular, enfrentando os “filinhos de papai” da capital.
Minha melhor morada foi na CEUP (Casa do Estudante Universitário do Pará) na Avenida 16 de novembro. Era uma casa grande e antiga, onde oitenta rapazes formavam a família ceupiana. Tínhamos uma quadra de areia, carinhosamente denominada de Arena. Jogávamos futebol até escurecer completamente. Nossa turma era formada por estudantes do Baixo Amazonas. Fazíamos festas, rodas de samba e serestas. Brincávamos e brigávamos. Porém, éramos unidos.
Certa vez, depois de uma seresta, um colega nosso, hoje engenheiro agrônomo, negro como tição, excedeu-se na bebida. Tomou banho e deitou-se nu, profundamente embriagado. Seus colegas de quarto entaniçaram o pênis do coitado, dando várias voltas com fita isolante, deixando tal como uma mão de pilão. Lá pela madrugada, o negro gritava desesperado pelos corredores da casa, com vontade de mijar:
— Hoje vou matar um F.D. P.
Um colega meu obidense, hoje médico psiquiatra, me fez uma proposta, num período de férias, tempo que nosso restaurante não funcionava.
— Carlos, topas ir comigo no Comando Geral da Polícia Militar, pedir pra fazer refeição com os soldados?
— Claro que topo.
— Então te apronta amanhã, e não comenta com ninguém.
Saímos de parelha. Ele, vestido de branco com uma maletinha preta, e eu, com uma bata azul claro, com o símbolo de engenharia no bolso. Fomos recebidos no gabinete do coronel, pelo oficial Pinduca ( Rei do Carimbó). Esperamos um pouco, entramos no gabinete. Meu colega era desembaraçado. Expôs com determinação nossa situação. O coronel fez um bilhete, grampeou e pediu pra levar ao oficial de dia, no quartel da Gaspar Viana. O oficial leu, ordenando-nos:
— A partir de amanhã, às 11h vocês deverão estar aqui com sapatos engraxados, cabelos cortados e roupa limpa. Tragam duas fotos 3x4 para a carteirinha.
— Sim senhor, respondemos como num coral.
A ordem do coronel foi pra almoçarmos com os oficiais e não com os soldados como solicitamos. Guardamos em segredo durante três meses de férias. Não saíamos juntos e nem comentávamos com nossos colegas esfomeados. Com nossa carteirinha de identificação, entrávamos em festas, como sendo uma legítima autoridade policial, ostentando o brasão da Polícia Militar. No verso da carteira, estava datilografado: “O portador desta carteira tem permissão para fazer refeição no 2° BPM (Batalhão da Polícia Militar).
O tempo passou, o coronel entrou pra reserva, meu amigo foi pra Rondônia, tendo sido, inclusive, Secretário de Saúde, enquanto eu passei a construir sem parar.
Um dia, eu estava em Santa Bárbara do Pará, finalizando uma escola, quando um senhor, de bermuda branca, se aproximou perguntando:
— Quem é o encarregado da obra?
— Sou eu.
— O senhor pode me vender cinco sacos de cimento? Está em falta na cidade.
— O senhor só precisa de cinco sacos? — perguntei.
— Não. Na verdade eu preciso de dez sacos. Mas só tenho dinheiro pra cinco.
Chamei meu almoxarife, pedi a ele que levasse dez sacos de cimento na casa daquele senhor. Ele então falou:
— Não, meu senhor. Eu, realmente, não tenho dinheiro no momento.
— Coronel, o senhor não me deve nada. Eu lhe devo muito mais. — Passei a contar minha história, quando ele disse:
— Não lembro. Ajudei muita gente.
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Data / Hora:
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19/06/2012 05:58:48
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Nome:
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Célio Simões
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E-mail:
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celiosimoesadv@gmail.com
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Cidade:
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Belém
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Comentário:
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Grande Carlos, parabéns pelo texto, impecável. Você deve recordar que moramos juntos na Casa do Estudante por três longos anos, de 1973 a 1975, de onde saí para contrair núpcias. Só comíamos no almoço picadinho de terceira, arroz todo quebrado embebido num abominável azeite tipo Lubrax 4, com um ovo cozido meio roxo em cima, parecendo o ninho de um pássaro. Não suportando mais o intragável grude feito pela Paula e pela Jacira, nossas cozinheiras, a título de protesto escrevi a poesia "NINHO DE JAPIIM" em alusão àquela gororoba e preguei pelas paredes do casarão, para deleite dos demais colegas. Fui chamado às falas pelo presidente da CEUB, meu hoje dileto amigo Gumercino Rebelo, arquiteto do BASA (aposentado), pintor de grandes méritos, membro do Instituto Histórico do Tapajós e um dos mais destacados valores artísticos e intelectuais de Santarém. Vida que valeu a pena ser vivida, para dar valor ao que temos.
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Data / Hora:
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18/06/2012 10:25:52
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Nome:
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Renato Amaral de Souza
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E-mail:
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renatoamaral22@gmail.com
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Cidade:
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Manaus-Am.
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Comentário:
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Amigo Carlos Antonio,
Também morei em casa de estudante na CEUMA (Casa do Estudante Universitário do Medio Amazonas).Vivi situação não muito diferente da tua. Um dia fui colocar o lixo na lixeira e o garí perguntou, vocês só comem ovo? não! hoje tem muita casca porque fizemos bolo.
Um abraço, Renato
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Data / Hora:
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15/06/2012 09:53:38
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Nome:
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Dino Priante
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E-mail:
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diopriante@ibest.com.br
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Cidade:
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Belém
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Comentário:
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Frenquentei muitas festas na Casa dos Estudantes da 16 de Novembro.Essa tua história é interessante.Valeu.
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Data / Hora:
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15/06/2012 02:59:38
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Nome:
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João Canto
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E-mail:
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jjfcanto@gmail.com
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Cidade:
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Belém - Pará
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Comentário:
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Muito legal seu texto Carlos. Realmente essa foi uma excelente saída. Muitos obidenses passaram pela Casa do Estudantes de Belém e com muitas histórias. Parabéns!
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Data / Hora:
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15/06/2012 02:28:45
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Nome:
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César Calderaro
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E-mail:
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rc.calderaro@gmail.com
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Cidade:
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Belém-Pará
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Comentário:
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Prezado Carlos Antônio
Gostei muito.
Tudo de bom.
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Data / Hora:
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15/06/2012 01:20:15
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Nome:
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Ademar Amaral
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E-mail:
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ademar.amaral@sotreq.com.br
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Cidade:
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Belém
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Comentário:
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Taí um exemplo do que é escrever bem. Grande texto, Carlos. Grande, um exemplo que ninguém deve ter vergonha de imitar. Enxuto, enredo atrativo, fechamento perfeito, virgulas nos seus devidos lugares e diálogos no tamanho e medida certos. Tô de boca aberta, mas não surpreso. Parabéns!
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