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O PIJAMA DE MEU AMIGO

A minha passagem por Óbidos foi curta, carregada de emoções e companheirismo. Sete anos conquistando sólidas amizades, sendo difícil enumerá-las e qualificá-las por ordem de grandeza ou por outro método que não seja o do respeito, do sentimento e da afeição.

Entre tantos amigos, faço aqui referência a um dileto e afeiçoado colega, de quem guardo lembranças sadias, distinção e orgulho pela sua íntegra conduta e lealdade. Luiz Guilherme de Jesus Maia Tostes, de nome comprido, sendo ainda maior o seu coração, onde guarda com chaves da paixão as lembranças dos seus colegas e das nossas nostálgicas aventuras.

Luiz era um rapaz elegante, bem apessoado, cabelos lisos e negros, penteados para o lado direito, tal como um legítimo indiano. Dotado de uma inteligência de fazer inveja, e por ter um rápido raciocínio, ganhou o apelido de “esquilo”. Ele fazia tudo rápido e articulava antes de pôr em prática. Estava sempre atualizado com as novidades, extraídas das revistas que seu irmão mais velho mandava de Belém, e também pelos sábios ensinamentos do seu tio, o escritor Idelfonso Guimarães.

Morava lá para as bandas da casa do escritor Francisco Manuel Brandão. Aprendeu a dançar com sua enérgica prima. Os dois irradiavam vigor nas tertúlias, com eletrolas Hi-Fi de alta fidelidade e som estereofônico. Nas festas, ele “bacardimente” alegre, dançava um tipo de “cavalo manco”. A dama saía tal como um pião zarolho, alegrando os ambientes com muito entusiasmo. Ele, por sua vez, acompanhava trôpego, os passos da dança, pisoteando pelo salão, a causar risadas ao fiel sereno de plantão.

Luiz vivia mergulhado nos livros e nos gibis (Cavalo Negro, Captain America, Fantasma, Tarzan e outros que não me recordo). Tinha uma coleção de livros “Tesouro da Juventude”, onde pesquisava invenções no campo da Química, da Física, da Matemática, além de curiosidades científicas. Devido nossas constantes reuniões, manipulando livros, revistas e jornais, um senhor militar conservador tentou associar nossa conduta com as dos comunistas. Claro! Sabíamos que a “linha dura” planejava ações rigorosas contra a oposição e contra estudantes insatisfeitos com o modelo militar. Compartilhávamos com os movimentos estudantis em nível nacional, e éramos adeptos do lema “é proibido proibir”. Passou!

Luiz Guilherme, Paulo Roberto Viegas e eu, tentávamos praticar experiências selecionadas pelo Esquilo. Certa vez, achamos que íamos ficar ricos com a instalação de telefones na cidade. Luiz pesquisava, Paulo aperfeiçoava e eu desenhava. Chegamos a instalar uma linha até a casa do Paulo, onde nos comunicávamos com perfeição, aumentando nossa perspectiva no ramo da telefonia. Devido à longa distância para minha casa, pela falta de patrocínio, e considerando que o arame deveria ser tensionado a cada poste, tornou-se inviável a instalação do meu aparelho. Ficamos apenas com o protótipo e com nosso orgulho elevado, tal como o professor Pardal, nosso ídolo. O sistema funcionou com eficiência por muito tempo, até o dia que a CELPA- concessionária de energia, chegou e demoliu nossas instalações. Pensávamos em ingressar com uma ação contra a companhia, porém nos faltava embasamento legal. Fizemos outras experiências científicas, todas com sucesso. Nas mais complicadas, pedíamos ajuda ao José Felix, do Banco do Brasil, dotado de uma paciência fora do comum.

Para guardar os nossos segredos, criamos um alfabeto chamado CALUPA (Carlos, Luiz e Paulo), do tipo taquigrafia. Passávamos cola na sala de aula, escrevíamos cartas e expressões matemáticas, sem que ninguém soubesse o significado. O CALUPA foi um divertimento pra nós durante o curso ginasial, guardado tal como um sigilo da CIA ou da KGB.

Em Belém nossa amizade continuou, onde revirávamos a cidade atrás de festas, aniversários, bares e terreiros juninos. Nossa turma de Óbidos era unida: Roosevelt, Luiz, Célio, Orlando, Finéias, Antonio Luiz, Dezinho e outros obidenses que íamos encontrando já na década de setenta. Aos sábados, pela manhã, tínhamos um infalível encontro na Rua João Alfredo. Após várias voltas ao longo da rua, estacionávamos estrategicamente em frente à loja 4 e 400, paquerando as gatinhas que na época chamávamos de borrachos. Formávamos ali uma roda de obidenses, atualizando as notícias da terra.

Certa vez, Luiz ganhou um presente de aniversário, embalado numa caixa, com todo requinte característico de um belo regalo. Era uma roupa que acabara de ser lançada, fazendo parte até hoje do vestuário masculino. Um pijama, de seda pura, cor azul, debruado com fitilhos brancos e botões de madrepérola e calça do tipo bermuda. Dento da caixa, bem posicionado, tinha um ramo de patchouly, exalando um cheiro paraense no ambiente que impregnou por vários dias o “cheiro cheiroso” aromático naquela roupa. Chik, Chik mesmo! Em Óbidos, Luiz não tinha o costume de usar pijamas. Ele pensava que o conjunto era um traje de passeio. Num sábado, como de costume na Rua João Alfredo, esperávamos os amigos. Surpresa! Esquilo apareceu envaidecido metido no seu pijama azul marinho, com mocassim preto, cabelos bem conformados pelo excesso de Glostora, causando admiração em todos que passavam, como se ele fosse um manequim de uma loja de roupas íntimas. Após a gozação da turma, via-se o Esquilo sumir entre os ambulantes e pedestres pela Rua Sete de Setembro.

Hoje, Luiz é advogado, curte ao lado da sua esposa num belo apartamento no bairro de Nazaré. Costuma trajar uma bermuda, orientando seus filhos para a vida. Praticamente aposentado, ele exerce um cargo importante na Secretaria Estadual da Fazenda do Pará (SEFA).

 


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