
João Imbelloni
No e-mail a queixa do amigo internauta que não pertence, infelizmente, ao grupo dos meus especiais e poucos leitores: “Cadê os artigos de interesse coletivo? Por que falas de tua vida em textos meramente poéticos? Cadê os interessantes assuntos diversos de tempos passados?"
“Meramente poéticos”... Mas exemplos (interesse coletivo) para os que entendem do assunto e procuram, de fato, aprender alguma coisa com as feridas alheias e as suas próprias feridas. Quem não as tem? Afinal, os sofrimentos são a base da eterna evolução do aprendizado...
Válido é lembrar, ainda, que estamos na época da contemporaneidade, posto que ficou no passado o absolutismo. Nesse contexto cada um escreve o que quer, com capacidade e sem censura. No momento em que produz, sabe o poeta que o homem é filho do seu tempo.
Assim sendo, penso que no dia 23 vindouro será o aniversário de três anos da resposta daquele fatídico telefonema, o qual, em face das atitudes de João-João, anunciava outra despedida sem a presença física de uma paixão. Após a justa decisão de quem se sentia traída, o sonhador escrevia na surrada agenda, no final de 2008.
À noite
Telefonema muito frio
Dizendo: é engano!
Engano? Indignação
Zombando do desengano.
Manhã seguinte:
Na casa da procura
Só o recado: ela
Não está. Partiu!
Partiu? Só o coração.
Hipócritas perguntas de poeta:
Se ontem era amado
Indago à solidão:
O que aconteceu?
Aonde foi a paixão?
Sem respostas me consolo
Na cruel dor do abandono,
Cujo sangue vivo jorrará
De um coração sem dono.
Naqueles dias muito sofria o poeta com a pesada consciência ditando as agruras de o sombrio caminhar do arrependimento. Lembrando-se que aprendera com o seu mestre a nunca usar a triste e pobre rima de “amor” com “dor”, assim mesmo escrevia na agenda do consolo:
Ainda ontem planos
Baseando tanto amor.
Hoje apenas o vazio
Preenchido pela dor.
Aquela paixão, não sabia o sonhador, anunciava-se como o seu tão esperado amor. Mulher simples, mas dotada de todas as virtudes necessárias para ser a metade de um homem como João-João, caso o mesmo renunciasse ao seu sofrível jeito de viver, seguindo pela vida na busca de inspiração para os seus escritos, e pagando o justo preço do sacrifício pessoal de viver quase sempre abraçado à solidão.
Três meses passaram-se cheios de felizes momentos, com os dois aproveitando ao máximo o presente, não se importando com o passado e desdenhando do futuro. A aparente felicidade não evitou que João-João voltasse os olhos para o outro lado e, como sempre o fez ao longo da vida, longe da realidade não resistiu às promessas de outro olhar e aceitou ser envolvido por outros braços em certa noite. No dia seguinte, porém...
Quanta ilusão. Arrependido, o sonhador correu ao encontro da grande esperança, todavia, para o seu desespero – repetida história -, as línguas da pequena comunidade já tinham feito o grande estrago. Apesar do sofrimento, a promessa de um belo futuro não mais o quis, em que pese os mil pedidos de perdão...
Resignado, nos braços da saudade e muitas vezes sob os amplexos da solidão, o sonhador permaneceu no opaco nestes últimos anos, vagando pela vida e blasfemando, como naquele desesperado dia de março de 2009.
Por que, Deus Meu, tanto abandono?
Por que a sensação de ser pequeno
Na pequenez de uma vida sem sentido?
Quem sabe deixei de ser teu filho.
Quando do vazio do amor e do carinho
Busquei por Ti, a resposta foi o sofrimento,
O que me leva a duvidar da existência
Do Eterno Pai, Todo Poderoso e Bom.
Tantos outros, tal qual este filho,
Sofrem sem respostas às próprias orações,
Semelhantes a um navio sem leme
Seguindo perdido no oceano...
Depois de passada a tormenta, alguém entenderá a mensagem registrada, inicialmente, em desprezada folha de papel amassada e jogada no lixo:
IMPASSE
Cruel dúvida que atormenta,
Maldito e dúbio sentimento,
Que ferem até a alma
De o volúvel ser em sofrimento.
À esquerda, a pura simplicidade;
À direita, a dura vaidade,
Completando-se e sendo uno
No fio do amor procurando o prumo.
O que fazer diante do impasse?
Ficar com o total, cobiça humana,
Ou sofrer perdendo a unidade
De um amor e duas cabanas?
Neste 2011, no mesmo dia (11 de setembro) de tristes recordações para o povo americano do norte, João-João conheceu aquela que, passado tanto tempo, mexeu com o seu diferenciado coração, mostrando-lhe que é possível amar de verdade. Muito feliz, o sonhador (de público neste site) confessa o seu amor via missiva da esperança, esforçando-se, sobremaneira, para corresponder ao maduro amor que nasceu como se fora ordem divina, em virtude das peculiaridades de como tudo aconteceu. João-João está amando? Acredita-se que sim, haja vista a felicidade do casal que busca – diariamente – regar a planta que cresce viçosa e enraizada no solo fértil do carinho, compreensão e amor...
O que é, no entanto, um poeta? Perguntam-se muitos, inclusive o amigo internauta citado no início deste artigo. Em mais uma tentativa de resposta, transcreve-se o lindo poema da Garota do Matapi, a primeira grande paixão do sonhador, hoje sua amiga e irmã de todas as horas.
O MAIOR BEM
Izarina Tavares
Um dia alguém me veio perguntar:
Que queres tu neste viver de sonho
Sem dinheiro e sem pão, viver medonho
Enquanto ainda podes trabalhar?
Aí então me pus a cismar:
É que o poeta é um eterno enamorado
Pelo amor, pelo prazer, pelo pecado,
Pelas palavras que vive a buscar.
Sua maior posse é a rima imaculada
Sem jamais encontrar o seu cimélio
Sangra de dor ao vê-la inacabada.
Mas, labutei, cumpri a minha meta!
Sem precisar das ordens de um bálio
O pouco que eu juntei foi muito pro Poeta.
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